“É preciso passar da retórica à ação”, defende Paul Bélanger
Ao questionar o fato das riquezas da África não lhe pertencerem, o representante da sociedade civil foi fortemente aplaudido.
Por Tatiana Lotierzo (CLADE)
Foto: Cláudia Ferreira
Na famosa frase de Albert Einstein, “a vida é como uma bicicleta. É preciso avançar para não perder o equilíbrio”. Foi assim que Paul Bélanger, professor da Universidade de Québec, em Montreal, e presidente do Conselho Internacional de Educação de Adultos (ICAE), encerrou seu discurso na manhã desta sexta-feira, último dia da CONFINTEA VI.
Bélanger falou em nome da sociedade civil, fazendo referência, no título de sua apresentação, à ideia proposta na Declaração encaminhada pelos/as representantes das diversas organizações não-governamentais e movimentos sociais que participam da Conferência: “Da retórica à ação”.
É justamente a necessidade de ação coletiva, mobilizando atores governamentais, do setor privado e a sociedade civil, com destaque ao papel das associações de educandos, que fará avançar a Educação de Pessoas Jovens e Adultas (EPJA), defendeu o conferencista.
Para Bélanger, a importância da EPJA e da educação ao longo de toda a vida é transversal: sem ela, é impossível prevenir a epidemia de HIV/AIDS; é impossível cumprir com os Objetivos do Milênio; não se pode tampouco superar a crise alimentar, pois na organização das comunicades agrícolas participativas a EPJA desempenha um papel fundamental. Também é estratégia central para sair da crise financeira, à medida que permite educar as pessoas para um novo modelo de desenvolvimento. “Além disso, a centralidade da EPJA, que a torna extremamente profunda, é que se constitui num espaço para continuar a construir”, afirmou.
“Não é apenas “lifelong learning” ou “lifewide learning”, como entendem alguns. A EPJA é a possibilidade de cada um de nós de reconstruir o mundo e a nós mesmos”. É uma questão de produtividade, mas não apenas o desenvolvimento de estruturas materiais – são os recursos pessoais que estão em jogo, argumentou: “há 50 mil anos, a história vem sendo feita graças à inteligência humana. O desenvolvimento não é possível sem a participação ativa dos homens e mulheres”.
Bélanger defendeu a criação de lei que ultrapassem a concepção convencional e restrita de educação. Falou da importância da educação para a saúde, da educação popular e da educação não formal, elogiando a experiência dos países latinoamericanos e de alguns países francófonos nessas áreas. “A EPJA deve ser pautada no Ministério da Indústria, no Ministério do Trabalho, no da Justiça, não apenas tratada como exclusividade do Ministério da Educação, embora este deva garantir que essa sinergia ocorra”, pontuou.
A UIL deve proporcionar os recursos necessários, através da sinergia e da coordenação das iniciativas internacionais, no conjunto da UNESCO. Precisamos trabalhar para que até 2012 haja uma definição renovada, com novos critérios e instrumentos.
Quanto ao tema árido do financiamento da educação, o presidente do ICAE reconheceu a dificuldade de se falar em finanças sem falar de números. Defendeu a importância de corrigir investimentos em EPJA e a importância da ação, além da responsabilidade dos países do Norte, detentores de mais recursos, frente ao desenvolvimento global. Além disse, defendeu os investimentos no potencial humano e que os projetos não se fixem nos números, mas nas metas a conquistar – “investir em pessoas é construir vantagens futuras“, reforçou.
A plateia reagiu com aplausos quando Bélanger comentou a situação da África: “não compreendo por que os países africanos são os principais produtores mundiais de riquezas naturais e minerais, mas seu patrimônio não lhes pertence”, questionou.
Como conclusão, reiterou a importância da EPJA também para a superação da crise ambiental e do câmbio climático. O “planeta que sobreviverá é um planeta em processo de aprendizagem. Investir nossos recursos na inteligência coletiva é crucial”, propôs.
Bélanger apontou que a CONFINTEA V não conduziu a um movimento de atuação vigorosa por mudanças. E assim como uma bicicleta sem movimento corre o risco de tombar, agora é tempo de “passar da retórica à ação”, resumiu.
